19 maio, 2010

VELEIRO SANTA PAZ : ROTINA A BORDO COM AS CRIANÇAS

Gostaria de reproduzir, relato de Sandra do Veleiro Santa Paz! É tão transparente e sincero, que acho que vale a pena dividir com vcs!

"Faz uma semana que estamos ancorados em Tyrrel Bay, na ilha de Carriacou, envolvidos na rotina de manutenção do barco, atividades com as crianças, rotina de casa. Hoje senti o peso da rotina. Saí de Grenada com a expectativa de conhecer belas ancoragens, mergulhar nas águas claras do Caribe e aqui estamos nós, envolvidos com limpeza, cozinha e resinas. Rotina depende da maneira como olhamos para ela. Rotina boa é ritmo, que, como a respiração, é fundamental para organizar a vida. Eu sempre gostei de ritmo na minha vida, sinto que quando tenho uma rotina estabelecida, abro espaço para mim, para as coisas que quero. A linha que separa essa rotina que organiza da que estagna é tênue. Hoje senti essa rotina que pesa, cansa, traz a sensação de que um dia é igual ao outro, que estamos parados no mesmo lugar. Por um instante, penso “ontem o bolo de cenoura solou, hoje o pão integral ficou ótimo”. Que olhar pequeno, como se a vida realmente se resumisse a tão pouco.Na verdade, estamos crescendo bastante no meio da rotina da vida a bordo. Hoje fizemos pão, uma vivência que trouxe recordações da escola e do afeto que todos temos por ela. Júlia lembrava dos ingredientes, Clara sabia a receita de cor. Todas cantamos “compadre padeiro, que cheiro gostoso, mistura farinha, a água de tanto amassar, sovar, enrolar, o pão bem gostoso vai ficar...” , afinal “tem que cantar para o pão crescer, mamãe”, me ensina a Júlia. Amasso o pão e lembro do meu pai, de quantas vezes fizemos isso juntos desde que tenho a idade das meninas. Lembro do Aldo, amigo querido que fez a travessia do Atlântico conosco e que conseguiu a outra receita de pão que fiz hoje. Fazer pão junto une. Comer no almoço o pão que acaba de sair do forno traz satisfação. Sentimento de auto-suficiência. Estamos em uma ancoragem onde só tem o básico, e pão não está na lista. Ter pão fresco é especial. Dividir o pão, compartilhar o alimento. Alimento sagrado, que alimenta o corpo e o espírito.Enquanto isso, Lucas pede ajuda com a resina. Está consertando o leme do optimist emprestado que é nosso novo brinquedo desde que chegamos aqui.
Ajudo no conserto do leme e, como tudo é imitação, Clara depois vira a assistente do conserto da gaiúta da mesa de navegação, que está fazendo água. A satisfação da Clara em ajudar o pai nas tarefas do barco é grande. Lembro novamente de meu pai e de como eu me sentia feliz em ser sua companheira de mergulho. Lucas constrói seus vínculos com as filhas. Aos poucos as meninas assumem mais responsabilidade. Clara lava a louça do almoço (é verdade que se importa mais com a quantidade de panelas usadas do que com o que tem para comer), Júlia a do café da manhã. Fazer isso com pouca água ainda é um desafio, já teve até prêmio a bordo para ver quem lava a louça (bem lavada, claro) com menos água. Arrumar a cama, se vestir, pentear o cabelo e escovar os dentes sozinhas pela manhã demorou um pouco mais, mas aos poucos fazem tudo direitinho. A primeira vez fizeram surpresa, chegaram no quarto para dar bom dia vestidas e penteadas, com o convite para ver a cama arrumada.
Transformar isso em hábito ainda exige paciência e disciplina - aliás, como tudo na vida.Quando olho para os vínculos e valores que estamos construindo juntos na nossa família, sinto que estamos no caminho certo. O peso da rotina vai embora com o mar e fica a sensação de que estamos no caminho certo. É essa certeza que tem aflorado em mim desde que embarcamos em Trinidad Tobago, em dezembro. O momento de viver essa nova viagem é agora, depois as meninas vão crescer e nós viveremos outras experiências - com o coração
tranqüilo de que aproveitamos ao máximo esse tempo juntos. "
Por Sandra Chemin

Um show de lição de vida!

Parabéns amigos pela dedicação!!! Estamos sempre torcendo por vcs e esperando encontrá-los sempre em breve!

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